Franceses revestem gota com musgo e criam 'água que não molha'
Se alguém chegasse e dissesse que criou uma água que não molha, a reação inicial provavelmente seria: é um truque. E é mesmo. A mágica não é de David Copperfield, mas de David Quéré e Pascale Aussilous, dois cientistas do Collège de France, em Paris.
Eles desenvolveram pequenas gotas que podem ser arrastadas por uma superfície sem molhá-la. O pulo do gato é que as gotas foram antes envolvidas por um pó hidrofóbico (incapaz de se dissolver em água), feito a partir de esporos do musgo Lycopodium.
A camada de poeira isola a água do ambiente externo, tornando a gota "seca" por fora. Dessa forma, ela pode ser transportada de um ponto a outro com mais facilidade, sem que parte do seu conteúdo se perca pelo caminho.
Embora pareça mera curiosidade (para não dizer atração de circo), os cientistas garantem que a técnica para criar gotas "secas" pode ter diversos usos.
Lakshminarayanan Mahadevan, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), diz que o avanço pode trazer respostas para várias áreas da ciência, incluindo profissionais que "vão de químicos e engenheiros interessados na dinâmica de gotas a astrônomos interessados na estabilidade de estrelas e de planetas em rotação".
Mahadevan, que já estudava matematicamente o comportamento de gotas "não-molhantes", escreveu um comentário sobre o trabalho para a revista britânica "Nature" (www.nature.com), a mesma que publica na edição de amanhã o estudo francês.
Embora enfatize a importância da técnica para o desenvolvimento de futuros experimentos e para o avanço do conhecimento, o cientista acredita que usos práticos também surgirão da técnica. "Essas aplicações acabarão surgindo. Já que as gotas rolantes podem se mover rapidamente e podem ser controladas sem o uso de campos externos, como campos eletrostáticos, pode ser possível usá-las como ativadores ou válvulas", disse Mahadevan à Folha.
Uma utilidade que certamente precisará de mais desenvolvimentos é o transporte de líquido para utilizar em reações químicas. Não é simples tirar a camada de pó que circunda a água.
"Não é mesmo fácil se livrar do pó. Uma alternativa seria usá-lo para outro propósito [além de conter a água]. Por exemplo, se a gota fosse levada a algum lugar para uma reação microquímica, o pó poderia servir tanto para o transporte quanto para ser um catalisador [acelerador] da reação", afirma o autor David Quéré.
As gotas usadas no estudo tinham de 1 a 10 microlitros (1 microlitro equivale a 1 milésimo de mililitro). Gotas de chuva em geral possuem um microlitro.
Autor: SALVADOR NOGUEIRA
free-lance para a Folha de São Paulo
Se alguém chegasse e dissesse que criou uma água que não molha, a reação inicial provavelmente seria: é um truque. E é mesmo. A mágica não é de David Copperfield, mas de David Quéré e Pascale Aussilous, dois cientistas do Collège de France, em Paris.
Eles desenvolveram pequenas gotas que podem ser arrastadas por uma superfície sem molhá-la. O pulo do gato é que as gotas foram antes envolvidas por um pó hidrofóbico (incapaz de se dissolver em água), feito a partir de esporos do musgo Lycopodium.
A camada de poeira isola a água do ambiente externo, tornando a gota "seca" por fora. Dessa forma, ela pode ser transportada de um ponto a outro com mais facilidade, sem que parte do seu conteúdo se perca pelo caminho.
Embora pareça mera curiosidade (para não dizer atração de circo), os cientistas garantem que a técnica para criar gotas "secas" pode ter diversos usos.
Lakshminarayanan Mahadevan, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), diz que o avanço pode trazer respostas para várias áreas da ciência, incluindo profissionais que "vão de químicos e engenheiros interessados na dinâmica de gotas a astrônomos interessados na estabilidade de estrelas e de planetas em rotação".
Mahadevan, que já estudava matematicamente o comportamento de gotas "não-molhantes", escreveu um comentário sobre o trabalho para a revista britânica "Nature" (www.nature.com), a mesma que publica na edição de amanhã o estudo francês.
Embora enfatize a importância da técnica para o desenvolvimento de futuros experimentos e para o avanço do conhecimento, o cientista acredita que usos práticos também surgirão da técnica. "Essas aplicações acabarão surgindo. Já que as gotas rolantes podem se mover rapidamente e podem ser controladas sem o uso de campos externos, como campos eletrostáticos, pode ser possível usá-las como ativadores ou válvulas", disse Mahadevan à Folha.
Uma utilidade que certamente precisará de mais desenvolvimentos é o transporte de líquido para utilizar em reações químicas. Não é simples tirar a camada de pó que circunda a água.
"Não é mesmo fácil se livrar do pó. Uma alternativa seria usá-lo para outro propósito [além de conter a água]. Por exemplo, se a gota fosse levada a algum lugar para uma reação microquímica, o pó poderia servir tanto para o transporte quanto para ser um catalisador [acelerador] da reação", afirma o autor David Quéré.
As gotas usadas no estudo tinham de 1 a 10 microlitros (1 microlitro equivale a 1 milésimo de mililitro). Gotas de chuva em geral possuem um microlitro.
Autor: SALVADOR NOGUEIRA
free-lance para a Folha de São Paulo

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